DA FLORESTA AO AÇO I

Não faz muito tempo, pelo menos 40 anos, era quase tudo floresta, com poucas iniciativas de criação de gado e animais para o transporte de castanha-do-pará, produto gerador da economia local.
A principal atividade era a coleta da castanha que produzia as relações sociais entre os considerados donos dos castanhais, os castanheiros, tropeiros, barqueiros e encarregados de barracões.
A cidade, constituída a partir do encontro dos rios Tocantins e Itacaiúnas, de águas límpidas, de cinco mil habitantes, cercada por matas era o espaço dos conflitos, próprios das sociedades, mas também da meditação e contemplação das belezas que a natureza proporcionava.
A única função das árvores era para o fornecimento de frutos para alimentação e fins comerciais, produção de embarcações e construção de moradias, embora já existisse a presença de contrabandistas de madeiras nobres, arrastadas pelas balsas.
No final da década de 60 anunciam a chegada do “progresso”, com as estradas, a colonização do INCRA e a descoberta do minério de ferro em “serra norte”, até então pesquisada por uma empresa americana, a Companhia Meridional de Mineração, subsidiária da Un ited State Steel.
No inicio da década de 70, o município, com uma área de 36 mil quilômetros quadrados, contava com uma população em torno de 14 mil habitantes, sob o domínio da oligarquia dos castanhais, é dado o primeiro passo para o “desenvolvimento”.
A política do INCRA exige que as pessoas desmatem as áreas para serem reconhecidas como proprietárias, a ACAR-Pará define a região como propícia para criação de gado, e a exploração mineral aponta a necessidade de energia elétrica.
Na década de 80 inauguram-se os grandes empreendimentos: a hidrelétrica de Tucuruí, a ferrovia Carajás/Ponta da Madeira, a implantação de dezenas de serrarias e a implantação de duas siderúrgicas, de um conjunto de 26 projetadas para serem implantadas ao longo da ferrovia.
Com a descoberta do ouro de Serra Pelada, em 1980, somado aos empreendimentos implantados durante a década, e as estradas PA-150, PA-70 e Transamazônica, é o suficiente, para sairmos do tempo da floresta para caminharmos para a era do aço.
A floresta já não tinha o valor como recurso natural preservado, deveria ser tombada e queimada para o semeio de sementes de capim, transformada em tábuas ou em insumos que pudesse dar condições para a expansão do capitalismo predatório.
Os ventos frescos e brandos de outrora, hoje nos chegam das áreas desprotegidas, com força e quente, carregados de fumaças, poeiras e fuligens que escapam das chaminés das siderúrgicas, com a marca do “progresso”. As águas ficaram turvas, os solos ressecados e os animais que escaparam refugiaram-se para as pequenas reservas indígenas que escaparam da ância feroz do dragão.
A cidade, junto a tantas outras que surgiram, sofre as dores do estupro, os filhos se multiplicaram e já não mais se entendem, se matam, se roubam, se tornaram estranhos com a perda cultural dos tempos da contemplação.
O belo agora deve ser procurado no concreto de cimento armado, no asfalto, no por do sol embaçado de poeira e fumaça e na praia do Tucunaré desprovida de serviços públicos, suja e tomada pela violência.
O comércio de prostituição com a exploração de crianças e adolescentes agora é feito em rede, agenciadores(as) se multiplicaram com o uso de quitinetes e celulares para aliciarem e entregarem as presas a seus exploradores.
As pessoas já não mais andam, correm, os veículos se cruzam ou se ultrapassam em alta velocidade, os acidentes se multiplicam, a violência, a criminalidade, o roubo e o furto, ocuparam as ruas, as praças e o ideário de jovens desprovidos de educação, trabalho e lazer.
Se no tempo da floresta os donos do dinheiro tinham como defesa e garantia de seus interesses delegados e policias, na era do aço eles tem o Estado com todo seu aparato judiciário, executivo, legislativo e as polícias.
Para que não sejamos derretidos na composição do aço não basta resistir é preciso enfrentar e destruir elos desta maldita engrenagem, que não passa pelas eleições hegemonizada por quem sempre foi ou se comporta como classe dominante, se faz necessário a construção de um novo bloco histórico, para além da lógica do capital.
Vamos à luta!
Marabá, 28 de julho de 2008.

Raimundo Gomes da Cruz Neto
rgc.neto@yahoo.com.br

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