Da Floresta ao Aço (II)

Na época da exploração “livre”, dos castanhais, quando chegava dezembro, algumas pequenas roças já estavam plantadas e as chuvas fortes que começavam no mês de novembro, era anúncio do momento para que as famílias se deslocassem para as matas para fazerem a coleta e o corte da castanha.
A exploração parecia livre porque os castanhais ainda não haviam sido apropriados por particulares, eram áreas de servidão do Estado ou do município e as pessoas trabalhavam a partir de suas próprias iniciativas e condições, até o momento da venda da castanha aos comerciantes.
Com a transferência dos castanhais para o domínio de particulares, através de arrendamento ou aforamento, inicia-se uma outra organização do trabalho, com o surgimento da figura do patrão (foreiro ou arrendatário do castanhal) e do castanheiro (o coletor e cortador de castanha).
Esta relação de produção é caracterizada pelo aviamento: o foreiro ou arrendatário do castanhal adiantava ao castanheiro uma certa quantia em dinheiro, para pagamento de dívida de pensão, e as necessidades no castanhal eram supridas no barracão de propriedade do patrão, com preços por ele determinado, sob as ordens de um encarregado.
Com o declínio dos castanhais e a introdução da pecuária extensiva como alternativa de acumulação, outra relação se estabelece no cenário, mesmo sem destruir a anterior que vai perdurar até final da década de 70, em situações cada dia menos sustentáveis diante de outro modelo de exploração.
Para o desmatamento para implantação de pastagens, com a derrubada de grandes áreas feita com uso do machado, posteriormente com a introdução da motossera, são recrutados muitos “peões” em outras regiões, pela figura do empreiteiro conhecido como o “gato”.
Estes “peões” além de recrutados fora da região muitas das vezes eram ou são encontrados nas pensões das periferias da cidade, que assim como os castanheiros, se tornam reféns das dividas antecipadas e contraídas nos barracões ou “cantinas”, como denominam hoje nos tempos “modernos”.
Na década de 80 o capital industrial, com indústrias ultrapassadas nos locais de capitalismo menos selvagem, impõe para o municipio um outro cenário, embora com as mesmas características: de exploração, espoliação e degradação social e ambiental.
As chamadas siderúrgicas para produção de ferro gusa atrairam do campo, dos garimpos e amontoaram nas periferias da cidade, contingentes de trabalhadores que formam um exército de reserva, mão-de-obra disponível a situação de exploração, com salários baixos e péssimas condições de trabalho.
Na produção de carvão vegetal, nas matas que ainda restam e nas serrarias, para fornecimento de um dos insumos que as siderúrgicas utilizam na produção de ferro gusa, os trabalhadores são expostos às condições análogas ao de trabalho escravo: sem direitos trabalhistas, precárias condições de trabalho e de moradia e prisioneiros por dívidas.
O estado do Pará é líder em trabalho escravo: nos últimos cinco anos foram resgatados 5.242 trabalhadores no estado, para um total de 20.000 em todo o país; este ano já foram resgatadas pelo Grupo Móvel de Erradicação do Trabalho Escravo, 413 pessoas, em 17 ações, de um total de 60, em todo o país.
Do tempo da floresta para a era do aço mudaram-se os termos, as formas, mas o conteúdo parece o mesmo. O discurso do atrasado sendo superado pelo moderno. Impera o agronegócio das fazendas com equipamentos sofisticados, para dar um ótimo conforto aos bois, como exigem os compradores internacionais.
Na luta pela sobrevivência, os trabalhadores se submetem ao trabalho precário, exploração intensiva de sua mão-de-obra com a geração de mais-valia relativa aos exploradores, moradias inadequadas, sem educação, sem saúde, sem cultura e sem lazer. Com a pobreza e a miséria para a maioria da população, chega o progresso e vai-se a natureza, a esperança de dias melhores e a vida.

Marabá, 08 de setembro de 2008.

Raimundo Gomes da Cruz Neto
rgc.neto@yahoo.com.br

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