Universidade operacional: Ufopa cria cátedra com mineradora Alcoa

A recém-criada Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) está longe de aparentar, o que dirá ser, uma Universidade. As demandas da comunidade universitária, formada a partir da junção de dois campi de duas universidades federais anteriormente existentes na cidade de Santarém (Ufpa e Ufra*), soam estranho para um ouvido mais atento: reclama-se da falta de espaços físicos como salas de aula e gabinetes para professores, uma biblioteca recém construída não possui livros, é forte a ausência de professores e há até uma proposta de estrutura acadêmica que prevê precariamente a junção curricular da graduação num único processo e a permanente concorrência e seleção entre estudantes desde a entrada até a conclusão dos cursos. São demandas básicas demais que tendem a ser explicadas comumente pelo pouco tempo de vida da instituição.

Mas, se não há condições ou preocupações mínimas para denominar à Ufopa como aquilo que se chama Universidade por um lado, por outro, os dirigentes (nomeados) da nova instituição de ensino superior operam na lógica da completa integração da instituição às estruturas capitalistas em expansão nesta fronteira amazônica.

Ontem, o blog do Sr. Ailton Faleiro, deputado estadual pelo PT e marido da atual vice-reitora da Ufopa, a Sra. Raimundo Monteiro (nomeada), noticiou e ilustrou bem esta perspectiva.

Na postagem “Ufopa terá cátedra de Ciência e Engenharia Ambiental” (em que se repete uma matéria do “Amazônia Jornal”) relata-se a assinatura de um acordo que oficializa a criação na Ufopa da cátedra de Ciência e Engenharia Ambiental com representantes das “instituições” Alcoa e a Fulbright.

A mineradora Alcoa já atua no município de Juruti, no oeste do Pará, com a extração do minério primário da bauxita. A matéria no blog diz como a empresa multinacional vai atuar na parceria com a Ufopa: “vai colaborar com a divulgação científica da cátedra no Brasil, acompanhar as atividades e o processo seletivo”.

Já a Fulbright é apresentada como uma instituição “(…) que promove intercâmbio educacional entre brasileiros e norte-americanos, vai proporcionar troca de conhecimentos, recrutando os pesquisadores americanos para a Ufopa, além de acompanhar o andamento das atividades da cátedra.”

A assinatura do convênio durante o seminário “Amazônia: Desafio Brasileiro do Século XXI” é no mínimo curiso. O evento teria os objetivos de “discutir as ações que vêm sendo implantadas na região com vistas a promover a pesquisa, a formação de recursos humanos para atuar na região e o desenvolvimento regional”. Mas, ao invés de ser realizado na região de Santarém, onde está a Ufopa, o evento se deu em Belém, nas suntuosas instalações do Centro de Convenções Hangar, bem longe, portanto da comunidade universitária, de suas precarizações e da região que se anuncia desenvolver.

A Ufopa portanto caminha para uma estruturação completamente subordinada do saber, onde o processo de ensino- aprendizagem torna-se uma prestação de serviços (“formação de recursos humanos”), sem autonomia universitária (a mineradora vai acompanhar o processo seletivo e aquilo que for produzido), completamente adaptada e inserida à lógica de mercado.
Não é de estranhar portanto que novos acordos estejam em curso por exemplo com o setor madeireiro e com a Eletronorte.
Porém, conforme já enunciava Marilena Chauí (1999), “essa universidade não forma e não cria pensamento, despoja a linguagem de sentido, densidade e mistério, destrói a curiosidade e a admiração que levam à descoberta do novo, anula toda pretensão de transformação histórica como ação consciente dos seres humanos em condições materialmente determinadas” (Leia A Universidade Operacional – Marilena Chauí).

Assim, a Ufopa vai se transformando de um locus sem infra-estruturas, sem propostas acadêmicas conscistentes e sem um fazer universitário condizente (ensino, pesquisa e extensão) para ser uma estrutura operacional do mercado, que no caso do oeste paraense se resume a exporação de recursos naturais primários: madeira, minérios, águas, biodiversidade, solo…
Deixa de ser uma ideia de universidade para ser uma universidade sem ideias.

*Ufpa – Universidade Federal do Pará/ Ufra – Universidade Federal Rural da Amazônia


Marlon Aurélio Tapajós Araújo
Advogado
Especialista em Gestão Ambiental-NUMA/UFPA
Mestrando em Direitos Humanos e Meio Ambiente-PPGD/UFPA

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