CPT realiza Encontro de Atingidos e Atigindas pela Mineração na Bahia

“De pouco em pouco estão encurtando nosso espaço na comunidade. Minha bisavó sempre residiu em Itapicuru, tem 104 anos, e hoje fica triste com o que estão fazendo na nossa serra”, desabafou Claudiana dos Santos Pereira, morada da comunidade Itapicuru, município baiano de Jacobina. Sua declaração engrossa a lista de denúncias sobre a exploração mineral no estado da Bahia e que tiveram eco durante a realização do Encontro de Atingidos e Atingidas pela Mineração, realizado pela CPT BA, nos dias 24 e 25 de fevereiro em Salvador.

Claudiana falou com detalhes sobre os impactos ao meio ambiente e à saúde das pessoas que vivem nas comunidades de Itapicuru, Canavieira e Jabuticaba, causados pela exploração do ouro comandada hoje pela Yamana Gold. Segundo ela, as violações de direitos geralmente começam já no processo de implantação das empresas, que para convencer a população fazem promessas de geração de empregos, construção de escolas, quadras poliesportivas, estradas, postos de saúde, enfim dizem que estão levando o progresso para a região. Aliado a isto, a falta de informações por parte das comunidades sobre a exploração mineral.

As conseqüências vão desde a contaminação da água e do solo, morte das nascentes, poluição sonora, devastação da mata, até a extinção das comunidades e esfacelamento das relações sociais.

“Nossas casas estão cheias de rachaduras. Vivemos toda vida aqui e nunca isso aconteceu. Agora, depois da mina…”. Contou Florisvaldo Cardoso, da comunidade Gameleira, em Caitité – BA. As detonações na mina causam as rachaduras nas casas. Quando questiona as Industrias Nucleares do Brasil que explora a mina de urânio na região, a resposta é sempre a mesma. “Eles dizem que o problema é a terra fraca e a qualidade dos pedreiros”, conta Florisvaldo.

A contaminação da água foi outro ponto apresentado por ele. “A gente não sabe se a água está boa ou não. Chega um órgão e diz que está contaminada. Chega outros mais alto e diz que está boa. Quando a empresa leva água pra gente, carrega no mesmo caminhão que leva a contaminada. Se bota comida boa no cocho pra porco, ela é boa?” pergunta Florisvaldo.

As experiências de resistência e luta contra as empresas de mineração e os impactos da atividade de exploração mineral nos estados de Minas Gerais, Pará e Ceará também integraram o encontro, que foi assessorado pelo membro do Movimento pelas Serras de Águas de Minas, Gustavo Gazzinelli.  O ambientalista deu uma visão mais ampla dos problemas da mineração, destacando os vários mitos que envolvem a questão.

Na tarde do primeiro dia, 24, participaram do encontro o Superintendente do Departamento Nacional de Pesquisa Mineral – DNPM, Teobaldo Rodrigues; o diretor do Instituto do Meio Ambiente – IMA, Pedro Ricardo Silva Moreira; o membro da Companhia Baiana de Pesquisa Mineral, Ernesto Alves. A crença na “casadinha” mineração e progresso norteou a apresentação dos representantes dos órgãos do governo estadual.  Ruben Sampaio participou representando o Grupo Ambientalista da Bahia – Gambá e questionou a falta de uma política de exploração mineral no estado da Bahia. O debate com este grupo revelou que ainda é preciso caminhar muito no diálogo com o Estado.

Sexta, 25, último dia do encontro, os trabalhos foram pautados pelo aprofundamento dos instrumentos jurídicos que incidem sobre a mineração. O Ministério Público, através da promotora Luciana Khoury contribui com alguns esclarecimentos sobre as questões legais. A discussão e definição de estratégias das organizações populares para enfrentar os mega projetos de mineração e os impactos causados por eles encerram o encontro.

Claudiana que participou das reflexões e definições volta para Jacobina lamentando pelo filho que não pode tomar mais banho nos rios e cachoeiras de sua comunidade.

 


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