Em carta, família de extrativistas assassinados pede justiça

Claudelice (esquerda) e Laisa Santos Sampaio (direita) entregam um abaixo assinado para autoridades pedindo a federalização das investigações do duplo assassinato
Claudelice (esquerda) e Laisa Santos Sampaio (direita) entregam um abaixo assinado para autoridades pedindo a federalização das investigações do duplo assassinato

por Felipe Milanez
01/09/2011
Os familiares de José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva têm vivido uma cruzada por justiça desde o assassinato do casal, em 24 de maio, numa emboscada no assentamento onde viviam, em Nova Ipixuna, Pará. Desde então, a polícia civil entregou o inquérito, apontando um mandante e dois pistoleiros. O juiz estadual, após negar dois pedidos de prisão, assinou o mandado, sob pressão social e já com a queixa do Ministério Público. Enquanto isso, os acusados fugiram, e a polícia federal ficou imobilizada pela justiça federal, que negou a competência para apurar a julgar o crime.

Sem justiça pelo judiciário, os familiares deram início a uma peregrinação, campanhas, abaixo assinados, busca por justiça tentando provocar uma pressão política. Foram a Brasília, a Belém. Encontraram-se com ministros – como a ministra do meio ambiente, Izabela Teixeira, num encontro de populações extrativistas em Marajó, no inicio de agosto. Repetem, em conversas, que “a presidenta Dilma mandou a polícia federal investigar” – em alusão ao pronunciamento de Dilma no mesmo dia do assassinato. E pedem que o caso seja federalizado – uma chance de minimizar a sensação de impunidade característica da justiça estadual no Pará, na visão das populações pobres do campo.

Impossibilitada de ir a Belém em um evento da Central Única dos Trabalhadores – CUT -, Claudelice, irmã de Zé Cláudio, escreveu uma carta, reproduzida abaixo, que pede que seja lida na plenária. Recentemente, os próprios familiares que vivem dentro do assentamento Praia Alta Piranheira passaram a receber ameaças de morte. Sentem que defender a memória da luta de Zé Cláudio e Maria é visto como provocador em uma terra sem lei. E temem que, com imunidade e a legitimação da violência pela oligarquia local, mais pessoas inocentes podem vir a ter o mesmo destino ceifado. Nesse ano, seis trabalhadores rurais já foram assassinados no sudeste do Pará. Ninguém foi preso.

* ** “Carta de desabafo

Toda uma luta por um ideal

Nós, da família de José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo, declaramos ao mundo que somos defensores da Floresta Amazônica, da não degradação do meio ambiente, somos a favor da luta contra o desmatamento desvairado, sem planejamento. Somos a favor da vida, e isso se resume numa luta por uma causa que nós acreditamos que seja a luta certa. A luta coerente, no sentido da subsistência da sustentabilidade humana.

Desde que o meu irmão, José Cláudio Ribeiro da Silva, conhecido como Zé Cláudio, e minha cunhada, Maria do Espírito Santo, conhecida como Dona Maria, foram assassinados, a luta pela justiça, é uma constante, mesmo quando tudo parece conspirar contra.

Excepcionalmente na pessoa ilustre, sincera e humilde até hoje vivendo no assentamento da forma mais simples, o Seu Zé Ribamar, aquele que pela primeira vez falou desse Partido dos Trabalhadores a meu irmão Zé Cláudio que também humildemente teve-o como base na questão política da época, não só do mesmo quanto de também da várias organizações muito respeitadas como CPT Comissão Pastoral da terra, SEPASP, CNS Conselho Nacional dos Seringueiros e o próprio PT, na construção e elaboração, formação e mobilização de um projeto de assentamento diferenciado onde a filosofia de produção era diferente, levando em consideração a comunidade tradicional local e o equilíbrio entre a produção e conservação. Em 1997 foi criado o primeiro projeto de assentamento Agro-extrativista da região sul e sudeste do Pará com inúmeros desafios, sentimentos e propostas distintas aos fazendeiros e madeireiros da região, também, mais ainda com um comprometimento unânime e decisivo do governo da federação, ou seja, vários interesses inclusos e exclusos dentro de um espaço onde, na verdade, muitos estariam inseridos. Desde então, claramente, na história de luta e de vida de Zé Cláudio e Maria houve o contraste e o diferencial. Acreditando ser uma luta justa, verdadeira, onde traria (e trouxe) benefícios reais a todos os contemplados do PAE – praia alta e Piranheira, iniciaram uma verdadeira batalha tanto pelas questões agrárias, ambientais, quanto pela questão humanitária, já que ali, naquele lugar, esquecido pelas autoridades, existia vida, sentimento, filhos, futuro, menos lei.

Assim, nesse mesmo tempo e espaço onde foi construído, e quando se apaixonaram pelo PT e pela certeza de um socialismo e de uma sociedade justa, onde todo mundo vivia sustentavelmente, igualitariamente, no mesmo local onde lutas de mais de duas décadas por um ideal, foram travadas além da luta por um Partido em especial, o PT, a qual acreditaram, lutaram, militavam, todos os dias de suas vidas a favor deste, inclusive sendo decisivos e influentes em eleições partidárias; não encontraram a reciprocidade nem mesmo depois de suas mortes, sequer reconhecimento póstumo, nem mesmo póstumo. Inclusive de pessoas da mesma militância do próprio município, onde tiveram uma luta leal, integra e incondicional mesmo com as turbulências muito preocupantes, que estava se concretizando nas mentes dos grandes mandantes do crime, e que sabedouros disso, nunca baixaram a guarda em favor da floresta em pé, em favor do meio ambiente, em favor das pessoas que estão ao pé da floresta.

Peço que os olhem com olhar de um guerreiro olhando para com o outro guerreiro morto em batalha, porém eternizado em sua luta e sua lealdade com a causa pela qual acreditava.

Por Claudelice Silva dos Santos e família e amigos valiosos.

Marabá, 31 de agosto de 2011”
http://www.amazonia.org.br/noticias/noticia.cfm?id=393175


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