Bicicletada Pelo Direito de Viver

Andar de bicicleta em Marabá há muito tempo se tornou uma coisa arriscada. É freqüente observarmos pelas ruas acidentes de trânsito envolvendo ciclistas. Esses acidentes acontecem não somente por falta de ciclovias, como muitos imaginam. A rua é lugar de todos os veículos, e não há nenhuma restrição sobre o trânsito de bicicletas nas ruas. Os acidentes acontecem por conta de uma cultura desrespeitosa que já tomou conta de Marabá. E eles não se restringem às bicicletas.

Infelizmente essa cidade tem produzido mais desgraça do que graça. Basta verificar os jornais locais para observar em que Marabá está se tornando: uma cidade que não tem a mínima tolerância com a vida. Os motivos para uma pessoa agredir ou mesmo matar outra são cada vez mais pífios. O trânsito reflete o descaso.

Segundo o Departamento Municipal de Trânsito e Transporte Urbano (DMTU), só no primeiro semestre de 2008 ocorreram 322 acidentes de trânsito em Marabá, resultando em 30 vítimas fatais. O mais preocupante é que, segundo dados do mesmo órgão, o número de vítimas não cresce de acordo com o aumento da frota de veículos. Ou seja, as causas dos acidentes não estão diretamente ligadas à quantidade de carros circulantes, mas sim à falta de respeito dos motoristas e à negligência destes com a vida.

A freqüência destes acidentes certamente não é resultado de um desvio individual de alguns. Trata-se de um problema social de uma região acostumada a ter uns poucos detentores do poder econômico para quem a lei é facultativa e na qual o respeito e a tolerância são sentimentos desprezíveis nas relações sociais. Afinal, vivemos na terra do “você sabe com quem está falando?”.

O modo como as autoridades corruptas tratam seu povo, sem respeito e com extrema violência, se reflete nessa realidade: de um lado os “poderosos” usufruem os privilégios de uma terra “sem lei”; dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) mostram que até novembro desse ano 23 trabalhadores rurais foram mortos, em 2010 foram 30 assassinatos. Os mandantes continuam impunes. Do outro lado da realidade há um povo usurpado, muitas vezes descrente de que alguma justiça possa ser feita e que alguma melhoria venha em seu favor.

Outra prova do descaso das autoridades com o povo é o fato de que há muito os governos deixaram de investir em escolas, tratamento de saúde, segurança, lazer e em outras necessidades da população, para atender às necessidades das grandes empresas multinacionais. Basta verificar quais são os maiores investimentos dos governos, são para benfeitoria de quem?

Se observarmos a forma como essa região é tratada pelas multinacionais podemos perceber como as benfeitorias não são de modo algum para o povo. A Vale, cuja exploração na região é descabida, e 70% dos lucros da empresa vão para fora do país, não respeita sequer as populações atingidas, que são expulsas de suas terras sem nenhuma consideração com suas histórias de vida.

Outra falta de respeito ocorre com a própria história da humanidade, quando se destroem cavernas e sítios arqueológicos, que poderiam esclarecer tantas coisas sobre a história na Terra. Além da falta de respeito com o meio ambiente quando se poluem os rios, as águas e derrubam florestas.

Essa terra cheia de exploração e descaso produz filhos desrespeitosos à vida e sem qualquer consideração aos sentimentos alheios. Faz crer que quem tem uma caminhonete tem poder. E pouco importa o que é certo e o que é errado, pouco importa quem perde. Afinal, “você está falando” com alguém acima de qualquer lei. A lei é o seu poder econômico, é a caminhonete que você pode ter.

O que precisamos é criar novas relações em que o respeito à vida esteja em primeiro lugar, e por vida entende-se não só o que vai até os limites humanos: vida estende-se aos animais e às florestas, à integridade dos rios e à conservação da memória.

Essas novas relações só poderão nascer e crescer com o povo na rua lutando contra toda essa violência que lhe é imposta, todo o descaso e toda a desumanidade, seja por parte dos políticos, seja por parte das multinacionais.

A ‘Bicicletada pelo direito de viver’ é um manifesto contra a violência, no trânsito e em qualquer outro lugar; é um pedido de justiça pelas mortes de Marcelo Morhy e de tantos outros Marcelos, Josés, Marias, Antônios… Mas além disso, é também um chamado à sociedade marabaense para iniciarmos uma série de lutas contra o saque dos nossos minérios, contra a corrupção, contra o descaso com a educação, com a saúde e com a segurança. Tudo isso porque sabemos que os problemas sociais não são realidades paralelas, e só uma luta que paute todos esses problemas é capaz de nos ajudar a criar, juntos, novas relações em que a vida seja prioridade.

A ‘Bicicletada pelo direito de viver’ vai acontecer no dia 18/12(domingo), as 8h, na Transmangueira. Vá e leve sua bike!

Marabá-PA, 15 de Dezembro de 2011
Movimento Debate e Ação

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